Biografia
Por que eu criei o Mother Off The Map
Era uma noite comum de dezembro de 2025. Todas as obrigações do dia já tinham sido cumpridas, a casa finalmente estava em silêncio, e eu estava de pé na frente do armário aberto, guardando as últimas roupas. Foi ali que eu senti uma coisa que não sabia nomear.
Não era tristeza. Não era cansaço. Era ausência. Percebi que tinha passado tanto tempo sendo tudo para todo mundo que, em algum momento, sem perceber, eu tinha parado de ser alguma coisa para mim mesma. Tentei os conselhos de autoajuda genérica que encontrei por aí. Pioraram as coisas — foram escritos para uma vida completamente diferente da minha.

Adriana Carneiro | Mother Off The Map · Miami, FL
Os oito anos que me trouxeram até aqui
Cheguei a Miami no fim de 2017, em 20 de dezembro, e não vim atrás da minha carreira: vim pela minha família — pela educação dos meus filhos e para aperfeiçoar o idioma. Deixei para trás 25 anos de trabalho construído com muito esforço, uma rede profissional inteira, um nome que eu tinha levado décadas pra consolidar.
O que ninguém vê de fora é o resto. É resolver consulta médica, reunião de escola, imprevisto, emergência, numa língua que ainda não era minha por completo — e ter que fazer isso todos os dias, sem margem para errar.
É perceber que a rede de apoio doméstico e de cuidado com os filhos que eu sempre tive no Brasil — a minha mãe, as minhas irmãs, as vizinhas, as pessoas de confiança de anos — simplesmente não existia mais aqui.
E é chegar à perimenopausa sem um médico que falasse a minha língua ou entendesse o meu contexto cultural. Enfrentei tudo isso, majoritariamente, sozinha.

O que confirmou que eu não estava sozinha
Se fosse só a minha história, talvez eu tivesse guardado essa percepção pra mim. Mas comecei a reparar o mesmo padrão se repetindo em outras mulheres à minha volta — recém-chegadas ou já estabelecidas há anos, brasileiras, latinas, imigrantes, na faixa dos 45, 50 anos ou mais.
Mulheres que também tinham vindo pros Estados Unidos seguindo a carreira do marido ou o futuro dos filhos, não o próprio caminho. Que também tinham perdido a identidade profissional que um dia as definiu. Que também navegavam um país sem rede familiar de apoio, numa segunda ou terceira língua. Que muitas vezes atravessavam a perimenopausa ou a menopausa sozinhas, sem um cuidado que parecesse humano ou fosse compreendido na própria língua.
Muitas delas estavam se aproximando do mesmo ponto de virada silencioso: os filhos começando a sair de casa pra a faculdade, e uma pergunta estranha, assustadora e ao mesmo tempo cheia de esperança começando a aparecer — quem eu me torno agora? Foi aí que a pergunta daquela noite de dezembro deixou de ser só minha.
Quem eu sou
Sou jornalista de formação e construí 25 anos de carreira em comunicação no Brasil. Comecei como jornalista e assessora de imprensa no ITEC, entre São Paulo e Buenos Aires, no comecinho dos anos 2000 — período em que fui assessora de imprensa do banqueiro Roberto Setubal. Entre 2007 e 2008 fui cofundadora e produtora de eventos na Twins Eventos. Em março de 2007 me tornei sócia-proprietária e diretora de Comunicação da AML Transportes, cargo que ocupei por nove anos, até 2016. Em 2016 fundei a minha própria empresa, a Fortune Logística & Transportes, da qual fui dona e diretora de Comunicação até 2018.
Em novembro de 2015 recebi dois reconhecimentos de comunicação corporativa: o Prêmio Águia Americana (Melhores do Ano, Instituto Nacional da Qualidade Social) e o Latin American Quality Award, do Latin American Quality Institute. Em 2012 fui selecionada, num processo concorrido, para o programa "10.000 Mulheres Empreendedoras", da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em parceria com a Goldman Sachs Foundation. E tem um fio que nunca se rompeu: desde 2015, e ainda hoje, sou editora e revisora de conteúdo publicitário para uma empresa de mídia em São Paulo, Brasil — onze anos seguidos do mesmo trabalho, atravessando a minha mudança para os Estados Unidos.
Hoje estou terminando um programa de formação profissional de um ano em Terapia Holística — o método Versalhes, Método Alma, sob orientação da terapeuta Larissa Topper. É uma formação explicitamente não clínica, voltada para apoio entre pares e facilitação de grupos: técnicas terapêuticas holísticas, suporte ao bem-estar mental e práticas de "holding space" — criar espaço seguro pra que alguém seja ouvido.
Preciso ser precisa aqui: não sou psicóloga, terapeuta nem conselheira licenciada. O que estou construindo é apoio mútuo não clínico, entre pares, com encaminhamento a profissionais licenciados sempre que necessário.
Eu sou a Adriana Carneiro | Mother Off The Map.
Isso nunca foi sobre construir um aplicativo para mulheres imigrantes na meia-idade. Foi sobre construir a sala que eu precisei e não encontrei.
O grupo online já está começando: um espaço fechado no Facebook, aberto a mulheres em português, inglês e espanhol — cada uma escreve no seu próprio idioma.
Essa história virou uma missão.